GESTOS PERIGOSOS

sexta-feira, 10 de julho de 2009

É SÓ UMA IDEIA


Qual seriam os níveis de miséria no mundo, de pobreza total, se todo o Conhecimento humano fosse distribuído, por equidade, em toda a humanidade?
Tinha lá meus doze, treze anos.
Cursava o ginasial.
Não era, confesso, um aluno exemplar. Mas não decepcionava.
E tal condição era o bastante para minha saudosa mãe exagerar nos elogios ao seu único filho. Tanto assim que, num belo dia, recebemos a visita de uma de suas amigas. Mulher simples, pobre, que lutava para manter seu filho em escolas públicas.
- Dona Tita, vim aqui pedir um favor à senhora. Meu filho está para fazer os exames de admissão para o “Canadá” (uma escola estadual). Ele não está bem nos estudos... Será que seu filho não dava umas aulas de reforço pra ele?
Exames de admissão...
Não me deixaram saudades.
Para ingressar no primeiro ano do curso ginasial era obrigatório o exame de admissão. Uma espécie de vestibular, nas devidas proporções, com as mesmas complexidades, com as mesmas angústias e ansiedades. Um horror!
Eu já havia superado essa fase, mas o Elias não.
O filho daquela senhora.
Então, por interferência de minha mãe, iniciei minha carreira de professor. Duas vezes por semana, o menino Elias vinha à minha casa para aprender o que eu tinha de conhecimentos para ensinar.
Um pouco de português, outro tanto de aritmética... E assim, as tardes de terças e quintas enriqueciam meu modesto currículo de vida com a missão de servir.
Contudo, sem muitas emoções. Na verdade, eu fazia tudo aquilo para atender um pedido materno.
“Meu filho é um professor!” – dizia Dona Tita, com orgulho, a todos quantos passassem por ela.
Nesse passo, dois meses se foram no consumo de terças e quintas. Mas num desses acasos que Deus assina como anônimo, por compromisso inadiável (consulta médica), eu não poderia dar aula ao Elias na quinta. Então, na quarta, fui à sua casa para avisá-lo do impedimento.
- Olá, Robertinho! Quer falar com o Elias? Pode entrar, ele está na cozinha.
Lá estava o Elias, sentado à cabeceira da mesa da cozinha, com livro e o caderno que usava em minhas aulas à sua frente.
E ao redor da mesa, mais cinco meninos, também com seus cadernos. E aí eu compreendi o verdadeiro sentido da solidariedade, da fraternidade.
O que o Elias aprendia comigo nas terças, ele ensinava aos amigos nas quartas. E repetia a ação nas sextas.
Longos cinco meses de trabalho, meu e do Elias. Mas, afinal, nossa luta recuperou esperanças, arrematou certezas, sacrificou dúvidas. E o Colégio “Canadá” matriculou o Elias na primeira série do ginásio e os cinco meninos ex-estudantes de mesa de cozinha.
Essa experiência alterou profundamente meus conceitos sobre a vida.
Percebi, tão cedo graças a Deus, a importância do servir.
A necessidade de auxiliarmos outras pessoas a serem felizes. De compreender que a nossa felicidade está intimamente ligada à felicidade das pessoas que nos cercam. Não há como crescermos sozinhos. A nossa evolução é parte da evolução infinita. Cada um de nós compõe o universo dos seres, não só humanos, que vivem em busca da harmonia, da paz, da felicidade. Somos uma sociedade etérea, comunidades heterogêneas, que, infelizmente, ainda se agridem em nome de equilíbrios sistêmicos, em nome de doutrinas tão diversas quanto a própria natureza das idéias.
Então, como buscar a harmonia que resulte na paz e, assim, produza a felicidade em cada um de nós? Evidentemente, não há fórmula mágica. Mas podemos buscar magia nas fórmulas disponíveis. Os instrumentos somos nós mesmos. E os meios estão nas experiências de vida que todos nós, sem distinções, adquirimos a cada dia. Reservar somente para si os conhecimentos que a vida oferece é egoísmo inadmissível. É deixar o túmulo digerir todo alimento acondicionado por uma existência na nossa mente, transformando-o, mais tarde, em adubo do nada, excremento da mesquinhez.
Sou e sempre serei da filosofia do ensinar a ensinar. Da troca de experiências. Da distribuição do Conhecimento, principalmente àqueles que não possuem recursos financeiros para adquiri-lo. Que Deus me dê sopas para alimentar os famintos, mas também me dê didática para supri-los do saber. Haverá o dia em que, nivelados pelo Conhecimento, as comunidades não serão tão heterogêneas, a harmonia será conseqüência da solidariedade e a tão sonhada Paz estará em nosso meio como passageira eterna no veículo-tempo que nos transporta do nascimento à morte. Todos terão as mesmas oportunidades. E a fraternidade será consagrada pelo verdadeiro amor ao semelhante.
Que tal sentarmos à cabeceira da mesa de nossa cozinha e prepararmos meninos e meninas para os ´exames de admissão´, impostos pela vida, que possibilitam a matrícula de cada um na escola da felicidade? Seríamos, então, os embriões da Grande Célula da fraternidade.
É só uma idéia...

Roberto Villani

terça-feira, 30 de junho de 2009

MEU DIA MAIS BONITO DO ANO


No domingo, dia 21, completaria setenta anos de idade. Sete décadas, contagem mágica, cabalística. Necessária alguma comemoração especial. Ter a minha volta a família, filhos, genros, netos... Até a nora que está a caminho. Entretanto, para satisfazer tal desejo, seria preciso reunirmo-nos em Santos, na casa da filha que por lá ficou quando vim para o interior. Então, convocação geral. Sairíamos na quinta à noite; combinado. Arrumamos as malas, acomodando-as nos porta-malas dos nossos carros. E dividimos as pessoas em dois veículos, quem ia neste, quem ia naquele. A ansiedade era tanta que quase esqueci de abastecer meu carro.
Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz.
Aproveitando minha presença em Santos na sexta-feira, marquei encontros importantes para mim e para o meu trabalho. Acordei relativamente cedo. Banhei-me, tomei café e saí curtindo ruas da cidade onde nasci. Santos está muito linda. Dirigia devagar, observando jardins, edifícios, pessoas... O mar... Sensação gostosa inundava meu íntimo. Orgulho travesso revia um moleque jogando bola naquelas areias. Saudade marota arrancou lágrimas de meus olhos atentos a tudo.
Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz.
Problemas para estacionar. Eu estava a caminho do Hospital São Lucas. Não, caro leitor, querida leitora, eu não estava com problemas de saúde. Dirigia-me àquele local para encontrar um velho amigo, funcionário de lá. O José Roberto, ou melhor, o Zé. Não nos víamos há muito tempo. Mas consegui uma vaga para deixar o meu carro. E fui obrigado a andar duas quadras. Eu sei que caminhar é preciso, que faz bem, mas...
Confesso que me emocionei ao entrar no Hospital São Lucas. Durante dez anos trabalhei ali na implantação e manutenção de sistemas de informática. Eu e o Zé Roberto. Comecei desenvolvendo programas num Applle, na linguagem chamada Turbo Basic, hoje objetos de museu. Com a compra de equipamentos mais sofisticados, criamos sistemas em Data Flex, linguagem avançada naquela época. Década de 80. Hoje, numa reverência do meu amigo Zé Roberto, sou considerado o pai da informática no Hospital São Lucas de Santos. Gostoso, não? Posso garantir que a conversa foi longe. Relembranças do passado. Das pessoas que conhecemos e que já se foram. E daquelas que, graças a Deus, ainda pertencem ao nosso presente. Deixei o São Lucas certo de ter alimentado um pouco mais a minha alegria.
Após o almoço, pus-me novamente nas ruas de Santos. Meu objetivo então era rever o meu grande amigo Carlos Pinto, Secretário da Cultura de Santos e presidente do ICACESP - . Amizade antiga, que nasceu na década de setenta, mais precisamente em 1971, quando organizei o primeiro festival de teatro infantil. O Carlos era presidente da Federação Santista de Teatro Amador e tornou-se parceiro na realização do evento, auxiliando-me naquela empreitada. O Carlos é um experto em administração pública, principalmente na área da cultura. Homem público de importância política invejável. Ser seu amigo é privilégio especial.
Nosso encontro mostrou-me uma panorâmica da cultura de um modo geral. Falei-lhe da cultura em Descalvado, das dificuldades, dos projetos, do intenso trabalho apesar das ausências... Visitei o Teatro Municipal; o Carlos está cuidando de restauros e de reformas naquele local que eu guardo com carinho no âmago das minhas saudades. Testemunha presente nas lides de meus trabalhos teatrais. Enfim, entre o primeiro e o segundo cafezinho, estreitamos acordos e eu garanti minha inscrição no ICACESP.
Deixei o gabinete do Carlos Pinto profundamente regozijado. Com a certeza de seu apoio no que me for preciso e com ingressos para assistirmos a Marisa Orth no dia seguinte, à noite, no lindíssimo Teatro Coliseu. Maravilhoso. Fomos, família de treze pessoas, e espalhamo-nos nas frisas, tribuna e camarote. E encantamo-nos. Marisa Orth, quem não a viu cantando num palco, esbanjando talento de artista completa, não imagina a beleza de sua figura e a força de sua voz. Pudesse eu trazê-la a Descalvado... Quem sabe, não é?
Como não poderia deixar de ser, o domingo nasceu belíssimo. O sol, logo pela manhã, abraçou-me por inteiro. Calor de aniversário. E acompanhou-nos pelo dia todo. Passeios pelo Gonzaga, pela Ponta da Praia... Pela Biquinha, em São Vicente... Ao entardecer, com certeza cansado pelas caminhadas ao longo do dia, o sol deixou-se levar para o oeste, abrindo espaço para a enluarada noite, repleta de estrelas, oferecer-me o beijo azul de parabéns.
Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz.
Por fim, em cima do bolo de frutas da Viena, duas imponentes velas revelavam minha nova idade. Setenta. Agradeci a Deus e ao Mestre Jesus o privilégio de apagar aquelas velas junto com toda a minha família linda. Ao meu lado, como há quase meio século, Rosária, minha eterna companheira. Meus filhos Rosane, Rosângela e Roberto. Meus genros Luiz Borim e Luiz Calado. Meus netos Luiz Roberto, Andrey, Andressa e Allan. Minha futura nora Fernanda e a Marilia, namorada do Andrey. Comi o doce daqueles momentos, bebi o néctar da felicidade, sorvi a alegria de estar vivo diante dos meus entes queridos. E a noite passou em paz. Desfez-se no calendário o meu dia mais bonito do ano.
Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz.
Roberto Villani
ps do editor:
Meu caro, penso eu que faltou arrumar um tempinho, para ir ate a Rio de janeiro 134, visitar o Carlos Alberto, mas.... Não se pode querer tudo, num dia só, ne?
hehehehhh

segunda-feira, 15 de junho de 2009

LER É CRESCER !

Beni esforçava-se para perder o medo de falar. E alguma mudança já ocorria no comportamento dele. Tanto assim que não foi difícil para Dida, sua fiel amiga e possibilidade de namoro, convencê-lo a assistir a uma palestra no anfiteatro do colégio. Eu fora convidado pela direção da escola para falar sobre livros e leitura. Uma iniciativa louvável para incentivar os alunos ao hábito de ler.
Beni e Dida acomodaram-se na última fileira, por escolha dele. Não queria ser muito notado entre seus colegas de escola. Como o auditório estava lotado, não lhe seria difícil passar despercebido.
- Alguém pode me responder quantos analfabetos existem no Brasil? – eu iniciava a palestra. – Como a quantidade ainda é muito grande, milhares de pessoas carecem do mínimo de Conhecimento. Por essa razão, única e indiscutível, o fracasso é o companheiro permanente na vida dessa gente. Ler é acrescentar bagagens culturais. É saber mais. Lendo, cada um de vocês aumenta o vocabulário, desenvolve a análise das argumentações, ou seja, elabora automaticamente pontos de vista e idéias.
- Ele é bom, não acha? – Dida provocava o Beni.
- Parece que é... – Beni, finalmente, emitiu um parecer, ato raro para ele, para júbilo da Dida. Eu continuava:
- Todo aquele que pretende falar bem, criar com correção seus argumentos para expô-los a outras pessoas, deve ler muito. É regra fundamental da comunicação. Quem se dedica metodicamente à leitura dificilmente escreverá ou falará de forma errada. Na leitura, assimilamos as maneiras corretas do uso das palavras, da composição das frases, enfim, de todos os quesitos necessários à boa comunicação. Mas uma coisa é importante: selecionem cuidadosamente o que vão ler. Existem muitas porcarias em forma de livros, que não acrescentarão nada ao conhecimento. Pelo contrário, poderão destruir o que vocês já tenham construído.
- Eu não gosto de ler. – sussurrou Beni a Dida. – O que posso fazer?
- Pergunte a ele. Levante a mão e pergunte. – disse-lhe ela.
Inútil proposta. Ela sabia que Beni ainda não estava preparado para expor-se em público. E resolveu substituí-lo na questão:
- Professor, eu não gosto de ler. O que posso fazer para mudar?
- Para quem não praticou a leitura desde pequeno, o desafio não é fácil. Mas também não é impossível. Você precisa adquirir o hábito. Ter vontade, entendeu? Ter consciência de que você só obterá sucesso na vida se buscar o Conhecimento através da leitura. Mas não se disponha, inicialmente, à leitura de grandes best-sellers, porque são famosos e porque todo mundo lê. Comece com livros de poesia, de crônicas, de contos... Parábolas... Muitos destes também são best-sellers, ótimos para conquistar nossas atenções iniciais, pois se constituem de estórias curtas e com muito conteúdo. Coisas assim, plenas de ensinamentos. Poesias, crônicas, contos e parábolas são ricos em exemplos verdadeiros da vida. E à medida que você desenvolve o gosto pelas letras, seu apetite literário vai exigindo leituras mais complexas. É só começar. Experimente. Tenho absoluta certeza de que você jamais se arrependerá de ter-me feito essa pergunta.
Ao finalizar, depois de uma hora de explanações, conclui:
- Lembrem-se sempre: ler é crescer!
Beni e Dida deixaram a escola felizes. Gostaram da palestra. Ouviram coisas esclarecedoras e importantes. Compreenderam que a leitura é a base de todo o Conhecimento. É a via preferencial do sucesso. E, a caminho de suas casas, passaram por uma livraria. Cada um comprou um livro. Beni escolheu Ecos da Alma, da poeta Fátima Irene Pinto. Dida optou por Levando a Vida Leve, de Laura Medioli. Carregaram-nos como algo precioso junto ao peito.
À porta da casa da Dida, entreolharam-se, sorriram e...
- Comprei este livro pra você, Beni. Com todo o meu carinho. – Dida estendeu as mãos dando o livro para o Beni.
O Beni, sem conseguir falar, deu o livro que comprara para Dida. E uma lágrima teimosa riscou de emoção seu rosto enrubescido. Dida estava feliz. O Beni dera o primeiro passo em busca da felicidade. E, quem sabe, do seu amor.
Beni foi direto ao seu quarto. Sentou-se na beirada da cama, pensativo. Desembrulhou o pacote do livro, com muito cuidado, sem pressa. Passeou pelas páginas impressas, sem ler. Buscando contato com aquele livro, senti-lo nas mãos. Algo valioso, só seu. Talvez estivesse ali, no livro, a chave das grades que prendiam seu projeto de ser feliz...
- Eu vou conseguir! – falou para si mesmo. Depois, deixou-se tombar sobre a cama. Paz sem cerimônia invadiu seu íntimo. E adormeceu tranqüilo, abraçado ao livro.

Roberto villani

segunda-feira, 20 de abril de 2009

"A CAIXA DOS PROBLEMAS"


Não há dúvidas de que o controle das emoções é algo complicado. São poucas as pessoas que, no teor da verdade, podem ser consideradas portadoras de total controle emocional. Por mais calmos, por mais equilibrados, sempre ocorrem momentos em que algum fato, bom ou ruim, desarticula nossas forças de equilíbrio. E essa fraqueza, se assim podemos chamar, é sempre desagradável, principalmente quando gera atitudes afetadas por exacerbações.
Não devemos esquecer que a motivação, uma das sustentações dos nossos avanços evolutivos, assim como a criatividade, é parceira de uma consciência emocional adequada. Então, para chegarmos a uma condição de controle emocional, que não seja perfeita, mas ideal, devemos recorrer ao autoconhecimento, à autoavaliação, principalmente no que diz respeito aos sentimentos, pois reconhecê-los enquanto acontecem é elemento decisivo da inteligência motivadora e criativa. Se avaliarmos um sentimento qualquer que nos incomode, descobrindo o âmago de sua origem, podemos, pelo menos tentar, dirigi-lo para áreas de menor importância para nós; que fiquem em segundo plano até que tudo se reorganize em nossas emoções.
Superar ansiedades e temores é a arma mais poderosa do autocontrole. O que nos gera ansiedade, deixamos para pensar amanhã. O que nos provoca medos, enfrentamos agora com a coragem e a sutileza do desprezo. O que devemos lembrar é a certeza de que a todo tempo vivemos realidades decisivas. A vida contemporânea expõe cada um de nós a desafios cruciais à nossa própria sobrevivência. Somos testados a todo instante. E isso gera sensações de instabilidade emocional, e somos levados à irritabilidade, à desconfiança, à incerteza, enfim, a toda a sorte de negativismo. E erramos conscientemente, mas amparados pelo desconhecimento de nossas próprias verdades.
Nessas fases, devemos buscar conteúdos para a vida, pelo que somos. É importantíssimo buscarmos artifícios que acomodem nossos sentimentos ruins, nas tentativas para educarmos nossa maneira de ser em razão da nossa possibilidade de ter.
Ariosto é casado. Tem dois filhos, já na fase escolar. Trabalha desde muito jovem. Acorda às cinco, banha-se, um gole de café e beijos de despedida na esposa e nos filhos, que ainda dormem. Ariosto trabalha numa indústria de rações para cães e gatos, no setor de produção. Freqüentou o ensino médio, sem conclui-lo, embora ainda tenha esperança de conquistar mais esse diploma. Sonha cursar uma faculdade. Melhorar o currículo para melhorar o salário. Melhorar o salário para melhorar as condições devida da família. Sonho de todo trabalhador.
Com sacrifício, às custas de prestações, comprou um Fusca. De cor verde limão, o que lhe causa momentos de irritação pelos deboches de seus colegas.
- Era o que eu podia comprar naquele momento... – nervoso, respondia às zombarias. E completava: - Ainda vou ter um BMW! – provocando muitas gargalhadas.
Podemos notar que Ariosto, na verdade, tem três desejos, digamos sonhos, de cunho pessoal: formar-se numa faculdade, melhorar seu salário e possuir um automóvel da marca BMW. Mas, no momento, ele tem um curso médio incompleto, um salário mais-ou-menos e um Fusca verde limão, que, por sinal, acaba de pifar. Pelo semblante do Ariosto, percebe-se que ele não está conseguindo equilibrar seu ‘astral’.
- Quer uma carona, Ariosto? – solidariedade de um colega, que lhe oferecia a garupa de sua motocicleta.
Ariosto sempre detestou andar de motocicleta. Tinha pavor. Mas não tinha outro jeito. Ficar ali não resolveria nada. Unir o útil ao agradável: no dia seguinte, pegaria carona com um mecânico. Ele, de volta ao trabalho e o mecânico, de encontro aos problemas do Fusca verde limão.
Para ele, a voltar na tal motocicleta foi horrível. O colega não era cuidadoso na direção, corria, saltava, chegou a empinar a máquina para exibir-se ao Ariosto, quase atirando-o ao solo. Imagine, o(a) amigo(a) ledor(a) o estado emocional do Ariosto naquele fim de tarde.
Meio torto, cambaleante, Ariosto deixou a moto, despediu-se do colega, agradecendo, e rumou à entrada de sua casa. No chão, perto da porta de entrada, uma caixa de metal. Ariosto abaixou-se, abriu-lhe a tampa e colocou suas mãos dentro dela por instantes. Fechou a tampa da caixa de metal, ergueu-se e, finalmente, entrou em sua casa. O colega assistiu todo o ritual do Ariosto. Passo por passo, gesto por gesto. E a curiosidade fê-lo bater palmas.
- Uma pergunta. – disse ao Ariosto assim que ele abriu a porta. E prosseguiu: - O que você fez com as mãos dentro dessa caixa?
- Deixei meus problemas, minhas ansiedades, meus medos e meus nervosismos guardados dentro dela. Essa é a minha caixa dos problemas. Não quero trazer toda essa porcaria pra dentro da minha casa. Quero paz com minha família. É uma forma que eu aprendi na Internet para controlar as minhas emoções.
- E dá certo?
- Acho que sim. Posso garantir que, assim, meus sentimentos não interferem na harmonia do meu lar. Amanhã, quando eu sair para o trabalho, ponho novamente minhas mãos na caixa e recolho aquilo que deixei agora a pouco. E garanto a você que a quantidade de porcarias será bem menor. A grande maioria morre durante a noite, talvez pela falta do oxigênio do meu cérebro. – riu, tornou a despedir-se do colega e entrou.
O segredo é condicionar os pensamentos à atitudes coerentes. Aprender a separar o que é sentimento nocivo das emoções saudáveis. Conhecer os limites que a vida impõe, bloqueando, na mente, a entrada dos desejos impossíveis, verdadeiros vilões e causadores da infelicidade. Saber adiar, para depois da própria capacitação, as investidas decisivas na conquista de escalas maiores na realização de grandes sonhos.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

UMA HISTORIA CHAMADA VIDA, PAIXÃO


Sexta-feira de uma semana santa. Feriado no país. No estado, na cidade... Na fazenda. Onde Severino trabalha no campo. Na terra, camponês. Mãos calejadas, que esfregam o sabão no rosto sulcado pelo sol de todos os dias. Severino, homem que só tem um bem. Zezinho, menino de seus sete, oito anos, que reflete o futuro que o pai não viu. Menino sem mãe. Como troca de vida no ato do parto. Severino de poucos livros, Zezinho de poucas letras. Ambos, na sua infinita inocência, apóstolos da humildade que Ele tanto pregou.
Zezinho veste-se com a única calça de brim, que ganhou de aniversário. Escolhe a camisa azul, deixando a branca na mala de lona embaixo da cama. Penteia com jeito os loiros cabelos, escova os dentes como aprendeu na escola e amarra os cordões do tênis já gasto pelas pedras dos caminhos. Andar lento, caminha até a porta de seu quarto, olha para o céu e sorri. O sol lá está, correspondendo com sorriso cheio de luz. Cumplicidade de menino e sol, desenhando cenário incomparável nas telas da existência.
Severino segura o filho pela mão. E saem, ambos, pela estrada de terra que acessa o mundo. Zezinho nunca foi à cidade. Primeira vez. Estréia de espetáculo inesquecível, que abre as cortinas dos olhos e apresenta toda a cor da vida. A longa caminhada começa a ser compensada pelo prazer de ver. Carros de todos os tamanhos, de todas as formas, de todas as posses passam lentos e velozes. Levantam poeira, às vezes terra. Levantam sonhos ocultos sob os tapetes do desconhecido até então. Pessoas atravessam praças, calçadas, bueiros, buracos... Cavalos, cachorros, carroças e promessas de muitas coisas ao passar de seus passos.
Severino pára diante de uma vitrine. Observa com olhar distante um terno vestindo um manequim. Zezinho contempla o boneco à sua frente e o compara com seu pai em pensamento. Não são parecidos, mas seu pai ficaria melhor naquela roupa. Outras vitrinas, outras visões, outros delírios mágicos na mente de um pequenino camponês.
- Pai, o que é aquilo?
- É a Paixão de Cristo. - Severino sorri. – São pessoas que gostam de contar a história de Jesus. E Jesus Cristo está logo ali, numa cruz, morrendo para nos salvar.
Mãos dadas, atravessam a multidão de espectadores. Colocam-se bem à frente do ator crucificado, empanando os olhos do pequeno Zezinho, que deixam escapar duas lágrimas tímidas. Com as suas mãos apertando as mãos do pai, Zezinho abaixa a cabeça. Não que ver mais. Para que? E força a saída de ambos daquele local dramático.
De volta, Severino entra num bar para beber algo. Zezinho fica na porta, triste. Observa tudo à sua volta. Tudo à sua volta, para o Zezinho, não tem sentido.
- Um dia Ele vai voltar... – alguém no bar assegura.
- Ele já voltou, moço. – fala o Zezinho - Eu vi Ele lá em cima, pregado na cruz. E também vi muita gente perto dEle, olhando pra Ele. Mas não vi ninguém com vontade de salvar Ele. Tirar Ele daquela cruz. Tirar aquela cruz de lá...
Severino pagou o que bebeu, pegou na mão do Zezinho e pôs-se em retirada. O passeio não foi lá essas coisas ao menino, mas ele percebeu, na sua infinita ingenuidade, que poucas pessoas estariam dispostas a arrancar definitivamente a cruz de uma história chamada Vida,Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Que o sentido verdadeiro da Páscoa seja-nos de todos os dias.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

JOÃO E MARIA


O nome dele era João Inocêncio, aposentado, casado com dona Maria. Morava numa casa muito simples, alugada, ao pé de um morro. O quintal de sua casa, lembro-me bem, era rocha pura. Não havia terra, nenhuma planta, por menor que fosse, brotava atrás de sua casa. Em compensação, à entrada de sua residência, flores abundavam aos olhos de quem lhes visitassem. Dona Maria cuidava de inúmeros vasos, organizados às margens de um corredor que ligava a porta do muro à porta da moradia.
Bons tempos aqueles! Eu tinha pouca idade e também poucas responsabilidades. Minhas atividades resumiam-se em estudar e brincar. E me punha radiante quando meus pais decidiam visitar seus amigos João e Maria. Parece coisa de estória infantil, não? João e Maria... Mas como aqueles, esses nossos João e Maria lutaram a vida inteira contra as maldades da vida. Sempre em batalhas contra as “bruxas” que se instalam no destino da gente, para experimentarem se engordamos para o “tacho” ou se emagrecemos para a liberdade.
Dona Maria formou-se no Curso Normal. Era professora primária, mas nunca exerceu a profissão. Gostava de cuidar da casa e de seus bichinhos de estimação.
- Loro quer café! – era o papagaio que se manifestava sempre que via alguém estranho pela casa. E lá ia Dona Maria servir café para as visitas e para o Loro.
Eu gostava de brincar naquelas rochas, com as crianças da vizinhança. Recrutávamos a criatividade de cada um de nós. Fazer o quê naquele solo áspero e disforme? Pega-pega, de jeito nenhum. Futebol, nem pensar. Bicicleta? Qual!... Então, escolhíamos uma parte em declive e, soltando bolas, torcíamos para acertar algum alvo colocado mais a baixo. Na verdade, imitávamos um jogo de parque de diversões.
- Crianças, almoçar! – Dona Maria, devidamente equipada com avental e lenço na cabeça, fazia questão de ver crianças ao redor da sua mesa.
- É deles o Reino de Deus. – afirmava à minha mãe, enquanto servia nossos pratos. – Eu, sempre que posso, faço um almocinho para os meus vizinhos pequenos. Adoro vê-los saboreando minha comida, nem que seja arroz e feijão com um bifinho.
- Os pais deles não se importam?
- Que nada! Até agradecem. É muito raro ver um pedaço de carne no prato deles por aqui. São muito pobres.
Após o almoço, as crianças deixaram a casa de João e Maria. Eu me deitei no sofá da sala, já um tanto sonolento. E comecei a olhar as paredes do cômodo. Retratos, muitos, emoldurados, pendurados por todos os lados. Fotografias, muitas antigas, que registravam momentos da vida de João e Maria. Eu gostava, e ainda gosto, de ver cenas do antigamente. Imagens que me dizem coisas que não sei, de pessoas que não conheci. Mas que excitam minha imaginação e me fazem lembrar que hoje somos o resultado de pessoas que foram como nós, que nos deixaram legados insubstituíveis, por mais simples que sejam, por mais insignificantes que possam parecer, componentes da trajetória histórica de cada um. Por isso gosto de ler um livro muito antigo, sabendo que outras mãos e outros olhos pousaram naquelas palavras antes de mim. Essas sensações trazem-me um gosto gostoso de saudade, de imortalidade, de eternidade. Algo que nunca passa, que nunca morre, se considerarmos nossa consciência e memória como depositários de existências que aparentemente já partiram.
Percorrendo outros espaços das paredes daquela sala, encontrei alguma coisa estranha aos meus olhos. No centro da parede frontal à porta de entrada, um pano roxo cobria algum objeto. Fixei meu olhar para aquilo, mas não consegui identificar. Então, não resisti a minha eterna curiosidade, e perguntei:
- Seu João, o que é aquilo? – apontei.
O olhar do João seguiu a direção do meu indicador...
- É o Nosso Senhor Jesus Cristo.
- Por que Ele está coberto com um pano roxo?
- Porque hoje é sexta-feira santa, filho. – meu pai antecipava a resposta do João.
João pôs-se de pé. Colocou-se diante do Cristo coberto com pano roxo. Embebido de forte emoção, comentou:
- Jesus Cristo é o nosso Senhor, o nosso Mestre. Que sofreu muito por nós. Que morreu crucificado pelos pecados que nós cometemos. Se você percorrer as paredes da minha casa, verá alguns panos roxos pendurados nas paredes. E não porque hoje é sexta-feira santa. Éu e Maria não queremos mais vê-Lo preso a uma cruz. Acho que em quase dois mil anos Ele já sofreu muito por todos nós. Está na hora de pensarmos Nele com alegria, vendo-O sempre feliz. O sorriso Dele é a Luz que todos nós precisamos, não mais as suas lágrimas. Por isso mantenho os meus crucifixos cobertos.
Na minha pouca idade, não entendi bem o que ele quis dizer. E, na verdade, nem me preocupei com tudo aquilo, muito complexo para mim. Fechei os olhos e adormeci. Já estávamos no meio da tarde e no dia seguinte, com certeza, eu sairia às ruas para malhar o Judas.

sexta-feira, 27 de março de 2009

GOOOOL!!! DE CHUTEIRA?????


Charles Miller trouxe a primeira bola de futebol para o Brasil, em 1894. Nem imaginava o que a gorduchinha, como diria Osmar Santos, promoveria entre os brasileiros. Fascínio, posso dizer. Algo indescritível, até alucinante, ora místico, ora vulgar. Deus e o diabo nas sendas dos certames. Guerra e paz. Amor e ódio. Todos os sentimentos opostos, extremos, declarados em punhos fechados esmurrando o espaço. Em bocas abertas de dor e alegria. O despertar dos magos. O elixir dos reis. Máquina de fazer milionários e miseráveis. Êxtase dos deuses míticos. Tudo e nada. Vitória e derrota. Gargalhadas e prantos intermináveis. Infarto! Futebol!
Sempre que entramos no clima de final de algum campeonato lembro de histórias interessantes. Fatos que marcaram minha vida de futebolista, nos priscos tempos da minha juventude. Eu tinha um vizinho apaixonado por futebol. Santista roxo. Conversávamos muito sobre pelejas diversas. Discutíamos muito quando o assunto girava por comparações entre o Alvinegro da Vila Belmiro e o Palmeiras. Mas estávamos sempre de acordo nas demais questões do popular esporte.
João Forganes, o meu vizinho, já tinha dois filhos. Evidente que era mais velho. Eu, adolescente, procurava extrair dele ensinamentos sobre a vida. Como um irmão mais velho. Por isso, não me incomodava quando, a cada gol do Santos, ele colocava o rádio sobre o muro divisório e aumentava exageradamente o volume. Eu sempre lhe dava o troco. Nos gols do Palmeiras, eu saltava o mesmo muro e, invadindo a varanda da sua casa, cantava em alto e bom tom o hino palmeirense. Jogo findo, reuníamos na rua, em frente às nossas casas, e ríamos muito, gostosas gargalhadas de amigos sobre todas as coisas.
- Vamos fundar um time? – perguntou-me o João, pegando-me de surpresa.
- Para quê? – pergunta idiota.
- Para que queremos fundar um time? Para jogarmos futebol, ora!
Goiás Futebol Clube, nome dado em razão dos vários jogadores residentes na Rua Goiás. Camisa verde. Calções e meias brancos. Presidente, vice, secretário, tesoureiro, conselho... Livro de atas. Coisa organizada. Treinávamos num campo da Ponta da Praia. Jogávamos, a princípio, para testar nossas equipes. Primeiro e segundo times. Amistosos sem compromissos. Assim, aos sábados ou domingos, visitávamos bairros e cidades da região, enfrentando adversários buscando os mesmos fins.
De repente, estávamos no meio de um campeonato varzeano. Times de Santos, Guarujá e São Vicente. Nossa valorosa equipe mostrava competência e avançava na tabela. Modéstia à parte, tínhamos um bom grupo. A empolgação de nossos companheiros jogadores animava nossa torcida a nos acompanhar em cada partida. Já se via nas arquibancadas camisas verdes enfocando nosso querido Goiás. Havia sempre, num canto qualquer, alguns batuqueiros fazendo barulho. Cada jogo, uma festa inesquecível.
Alcançamos, finalmente, a final. Jogaríamos no campo do adversário, o Juventus. Cidade de São Vicente. 1956, o ano. Nossa turma sabia que a disputa seria muito difícil, principalmente porque teríamos que vencer. Ao Juventus bastava o empate, pois o saldo de gols dava-lhe essa vantagem. E fomos ao campo com a certeza da vitória.
O jogo mostrava-se emocionante. Oportunidades dos dois lados. Os gols não aconteciam, mas as torcidas agitavam-se animadíssimas. Minutos finais, dois ou três. Tudo indicava que o Juventus levaria a taça. De repente, nosso lateral direito avançou pela ponta, velocidade não acompanhada pelo seu marcador. Quase na linha de fundo, cruzou em direção à pequena área. O goleiro do Juventus, na ânsia de agarrar a bola, saltou, conseguiu mal-e-mal dar um tapa na gorduchinha e trombou violentamente no meu marcador. A bola subiu e, para meu gáudio, sozinho diante do gol totalmente aberto, caia em minha direção. Bastava tocá-la, ela entraria. Uma barrigada seria o suficiente. Com o joelho... “Sopra!”, alguém na torcida gritou. Aquela seria minha grande chance de estufar a rede. A consagração. Meu Goiás seria campeão com um gol meu. E a ação concretizou-se. Da forma que ela, a bola, desceu, subiu a pino, como foguete rumo ao espaço sideral. Meu chute foi tão violento que minha chuteira escapou do meu pé e entrou na forquilha esquerda do gol adversário. “Gooool!”, gritaram todas as torcidas do mundo. E sob estrondosa gargalhada de todos que ali estavam, deixei o gramado para nunca mais esquecer o ridículo.