GESTOS PERIGOSOS

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PAI, ONDE ESTA VOCE?


Ponho-me à janela dos meus setenta anos. É noite. A insônia faz-me vigilante da madrugada. Percorro, com o olhar, as vias da vida que, adormecida, me representa pouco neste momento. Tenho saudades. Falta-me o ombro no qual me apoiei por muitos anos.
Como é linda a noite do céu. Espetáculo iluminado por milhares de luzes multicoloridas. Lá está o Cruzeiro do Sul... As Três Marias...Tenho admiração pelo universo. Freqüentemente, a bordo da minha imaginação, viajo entre as galáxias. Percorro planetas e estrelas como andarilho do infinito. Acomodo-me em satélites mesmo os desconhecidos. Aspiro o nada do vácuo eterno. É assim que minha mente traduz a fantasia que me envolve. Como um ser etéreo, síntese de tudo que a alma encerra. Um ser distante, empurrado pela nostalgia latente no meu peito. Como coisa sem nome a espera de novo batismo, essencial para ver você novamente, pai.
- Pai, onde está você?
Meus olhos acompanham, lá embaixo, a rua deserta, semi adormecida. Pais e filhos, neste instante de noite, recolhem-se aos sonhos mútuos. Cúmplices em campanhas comprometidas com o amanhecer de um novo dia. Não há carros nas vias. Não ocorrem movimentos nas calçadas. Apenas um supor melodramático de ensaios da morte, o sono, não o sonhar. Porque há vida no quarteirão da minha rua. Só e eqüidistante do privilégio de estar com você, pai, cultivo a inveja daqueles que, lado a lado, possuem o maior amigo de todo o sempre.
- Pai, onde está você?
Retorno ao interior dos meus aposentos. Recorro às prateleiras do meu conhecimento. Livros de histórias... Busco nas páginas amareladas das minhas recordações alguma sensação de encontro. Alguma idéia mágica, misteriosa, que me proporcione o aperto de mão que me falta. O velho olhar que ilumine meus caminhos finais. Não quero partir sem ver você, pai, mais uma vez. Preciso da sua força que me fazia enfrentar todos os moinhos de vento da minha insegurança. E me propunha a vitória em seu nome, como guardião dos meus sentimentos.
- Pai, onde está você?
Deixe-me abraçá-lo como nunca o fiz, meu velho. Agradecer, pessoalmente, todos os momentos que você dedicou ao meu conforto. Darmo-nos alguns minutos de conversa, como o fizemos algumas vezes no passado. Falar do Palmeiras - lembra? - continuando aquele bate-papo interrompido com sua inesperada partida.
- Pai, onde está você?
Permita-me apresentar a você meus filhos adultos. E meus netos nascidos também de você, pai. Permita-me dizer que o amo, não importa onde você esteja. Quero dizer que sinto muito pelo atraso do meu amor pleno. Quero dizer que a minha gratidão, pelo que você me fez e pelo que sou, há de se perpetuar no universo das nossas histórias. Onde eu sei que você está agora e estará para todo o sempre.

A todos os pais. E que os filhos os cultuem enquanto vivos, enquanto presentes.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

DEIXE SECAR A RAIVA


Tinha lá meus quinze anos. Adorava jogar futebol. Passava tardes inteiras batendo bola nas areias das praias de Santos. Aos sábados, quando compromissos com os estudos davam chances ao entretenimento. Desculpem, mas gosto de relembrar esse tempo de ser feliz sem responsabilidades maiores. Uma bola, um grupo de jovens dispostos e uma, duas, três partidas ao longo das horas.
- Mais uma? A melhor de três. Quem ganhar é o campeão deste sábado...
Até o João Folganes participava dessas chamadas peladas. Era o mais velho de todos. Tinha idade para ser pai de alguns de nós. Mas tinha a voluntariedade de um jovem irmão. Meu vizinho. Meu amigo. Meu conselheiro. As dúvidas que a vergonha impedia-me de recorrer ao meu pai, o João me explicava. Interessante, não tinha filhos. Talvez por isso, era tão ligado ao nosso grupo de jovens.
- Estou com idéia de fundar um time de futebol. O que você acha? – disse-me um dia. Sua idéia firmava-se no aproveitamento daqueles que, aos sábados, riscavam nas areias das praias do litoral os dribles, os tombos, os cruzamentos... Os saltos dos goleiros... Marcas da alegria que a bola trouxe aos povos de várias partes do mundo. Formas de amor coletivo, explícitas nas arquibancadas dos estádios que se construíram como Coliseus para vinte e dois gladiadores da era moderna.
Goiás Futebol Clube. Em razão do nome da rua na qual a maioria morava. Camisas verdes e calções brancos. Lembro-me de alguns: Juca Silva, Peixinho, Carlos Preto... Ah, Dona Rosa, que saudades! Negra que esbanjava simpatia. Mãe do Carlos Preto. Morava numa casa de madeira, quase um barraco. Na chamada Ilha Maldita, um reduto afavelado que interrompia a rua Vahia de Abreu, em pleno Gonzaga de Santos. Lavava roupa pra sobreviver. Com sorriso pleno, incumbiu-se de lavar semanalmente o uniforme do Goiás Futebol Clube.
A maneira de lavar roupas de Dona Rosa chamava a atenção daqueles que a conheciam. As peças encharcadas de lama, efeito dos campos barrentos nos quais jogávamos, eram estendidas nos varais sem serem lavadas.
- Primeiro, estendo as roupas para que a lama seque bem. Depois, dou uns tapas em cada uma delas, e o excesso do barro cai. Fica mais fácil para lavá-las em seguida. – Dona Rosa expunha sua técnica, para surpresa de todos nós. Eu, particularmente, jamais tinha ouvido algo parecido.
A relatividade entre as ações une as engrenagens que dão força à vida. Nada é autônomo o bastante para não corresponder à coisa alguma. Complicado? Não é. Juca Silva entrou esbaforido na casa do João Folganes. Irado, bufava feito boi bravo.
- O desgraçado do Nei perdeu o meu relógio. Emprestei pra ele fazer bonito pra namorada. Queria fazer bonito, o safado. E com o meu relógio novo.
- Como você sabe que o Nei perdeu o seu relógio. Ele te disse? – o João tentava entender.
- Não. O Jóia me disse. Ele encontrou com o Nei e com a namorada dele. E o relógio não estava no pulso dele. Mas digo uma coisa, vou até a casa do Nei, agora! Ele vai ter que me dar outro igualzinho, safado! Se não, a coisa vai pegar. - disse Juca Silva, pondo-se de saída.
João agarrou-o pelo braço...
- Deixe a raiva secar, Juca Silva. Lembre-se da Dona Rosa. Depois, você dá uns tapas na raiva e vai conversar com o Nei. Vai ver que tudo se resolverá tranqüilamente. A raiva, depois de seca, cai como o barro. Fica mais fácil lavar a roupa suja. - Juca Silva pensou, amansou e ficou trocando idéias com o João. Não demorou muito e o Nei apareceu...
- Trouxe o teu relógio, Juca Silva. Eu acabei não usando. Achei perigoso andar com ele. É muito bonito. Atrai malandro facilmente...
Lembrei desse fato ao ler uma parábola que falava em secar a raiva. No mesmo princípio no qual a Dona Rosa lavava a roupa. Incrível, não?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

AH, MARIA NÃ SEI DO QUE!...


Maria não sei do que.
Simplesmente Maria.
Morava num quarto e cozinha de um velho casarão, onde outras três famílias desfrutavam do mesmo quintal. Do mesmo tanque. Do mesmo banheiro. Da mesma pequena possibilidade para ampliar seus parcos domínios. Pessoas sem horizontes próximos, encurraladas num quintal de terra e nada mais. Eu os conheci todos, pois foi lá que nasci com direito a parteira e panos molhados em água fervente. Foi ali, sob um gigante abacateiro, que sonhei meus primeiros sonhos, que cantei meus primeiros cantos, que chorei e ri minhas primeiras emoções.
Maria não sei do que, simplesmente Maria, mulher companheira da eterna solidão, trancava-se no seu quarto e sumia do convívio amadurecido daquele quintal. Quem morava por ali, com exceção de mim, já passara dos trinta, alguns beirando os cinqüenta. Maria não sei do que aproximava-se dos sessenta. E eu, naqueles dias que acomodam esta história, mal completara os sete anos de idade.
Com a curiosidade impondo descobertas ao meu pequeno compreender, pé ante pé, encostei-me na porta do quarto da Maria. Que fazia ela naquelas tardes morenas do meu quintal campo de batalhas, do meu terreno campo de futebol, da minha área campo de idéias malucas próprias de uma infância totalmente solitária? Sentei-me à soleira. Encostei-me no batente. Adormeci no colo da inocência. Pouco depois, a porta abriu-se e eu tombei para dentro do quarto, assustado.
Ah, Maria não sei do que! Que delícia conversar com ela pela primeira vez. Rosto já marcado pelos sofrimentos, pelas angústias, pelas esperanças... Sentei-me em sua cama e ouvi, por horas, a primeira estória contada da minha vida. De reis e de princesas. De castelos e cavalos. De gigantes e duendes. De quimeras...
- Quando eu receber, vou comprar um projetor de cinema pra você. – dizia Maria não sei do que com certeza na vitória da sua esperança. Qual, Maria não sei do que!...
Apesar da minha pouca idade e do meu discernimento em formação, ela contou-me todo o drama que arrastava pelos fracassos de tantas tentativas. Lutava desesperadamente por herança que, sob seu entendimento, era-lhe de direito e justiça. Herança deixada, não em seu nome, por um irmão distante. Achava que teria um pequeno quinhão, o qual ajeitaria definitivamente a sua vida.
Maria não sei do que mantinha luta desigual na justiça. Seus sobrinhos, herdeiros, subjugavam-na através de caros advogados. Os trâmites da questão, coxos, perambulavam lentos por mesas, guichês, mãos e martelos, em propostas de esquecimento ou, quem sabe, morte da Maria não sei do que.
Durante dois anos, quase todas as tardes, eu ouvia estórias contadas por Maria não sei do que. Ela recebera de Deus o dom da criação literária, mas nunca se serviu das letras escritas para gravar seus contos maravilhosos. Talvez, foi por aí, nessa plataforma do tempo, que aprendi a contar estórias e histórias. Maria não sei do que passou-me essa energia vigorosa do relato criado ou descrito...
Tudo passa. A vida passa pelo tempo. Cresci, tornei-me adolescente, tornei-me adulto. Maria não sei do que ficara no passado, com seus sofrimentos, com suas angústias, com suas esperanças. Nunca mais a vi, até que um dia, numa tarde chuvosa, esgueirando-me junto às paredes da Rua General Câmara, quase tropecei num morador de rua. A pessoa, enrolada num roto cobertor, sujo, estava sentada, encostada na parede. Algo incontrolável fez-me ajoelhar junto àquela pessoa. Levantei a parte do cobertor que cobria seu rosto... Ah, Maria não sei do que!... Que fazia você ali, naquele túmulo de vidas desgraçadas, tomadas de sofrimentos, de angústias, sem esperanças...
- Não saia daí! – disse-lhe em carreira. Busquei meu pai. Eu sozinho não poderia salvar aquela vida que foi, um dia, meu guia de castelos, de sonhos, de esperanças... Meus Deus, como é ruim o abandono, a indiferença!
Retornamos ao local. Não havia mais ninguém. Procuramos nas ruas adjacentes. Nos hospitais. Na polícia. Em tantos lugares que me perco nas direções. E me perdi nas aflições. Desistimos.
Decorridos alguns meses, passando novamente pela General Câmara, um morador de rua ocupava o mesmo lugar de Maria não sei do que. Usava, parecia-me, o mesmo cobertor. Rápido, arranquei-lhe o pano do rosto... Mas não era ela.
- O moço procura a Maria contadora de estórias? Morreu ontem. Eu fiquei com o cobertor dela...
Ah, Maria não sei do que! Por que perdi você na minha história? Por que perdi você na minha gratidão? Por que perdi você na minha esperança? E hoje, encontro você no meu sofrimento, na minha angústia... E em todas as estórias que invento para lembrar você, como esta.
Ah, Maria não sei do que!...

sábado, 18 de julho de 2009

A ALIANÇA PERDIDA

As noites claras à beira mar são muito bonitas. Quem já teve o privilégio de vê-las, ao vivo como se diz, sabe do que estou falando. O oceano torna-se azul escuro, com reflexos de prata bem embaixo da lua. Se o mar está calmo, percebe-se estrelas boiando ao passar das ondas, como crianças brincando no balanço da maré. Coisa linda! De Poeta. Quando Deus escreve poemas nas laudas marítimas. Quando o amor deita-se na areia ao sabor salgado do mar.
Foi numa noite assim que esta história começou. Eu ajudava um grupo de pescadores de camarão. Na praia do Embaré, em Santos. Acreditem, há muitos anos, pescava-se camarão por lá. A água do mar era tão limpa que podíamos ver os nossos pés às voltas com siris. Tinha de tudo, lá. Além dos camarões e dos siris, conchas, estrelas do mar, pequenos cardumes, bagres...
A pesca era feita com arrastão de praia, aquele tipo de rede baixa e longa no comprimento. Vários homens seguravam essa rede ao longo dela e entravam no mar até onde fosse possível permanecer de pé. Com a rede já posicionada, totalmente esticada sob a água, ficávamos em silêncio, imóveis. Depois de algum tempo, começávamos a caminhar em direção da areia, arrastando a rede encostada no fundo. Os homens que a seguravam pelas pontas fechavam mais rápidos, de modo que formávamos um semicírculo. Já na areia seca, podíamos ver o que fora arrastado para fora do mar. Os peixes que não interessavam ao grupo eram jogados de volta. Restavam peixes maiores, lixo e os famosos camarões. Eu ganhava quase nada nesse trabalho, a não ser uns poucos camarões. Ajudava pelo prazer.
Numa dessas pescarias, quando estávamos posicionados para arrastar a rede, meu pé esbarrou em alguma coisa na areia embaixo d’água. Procurei identificar o objeto tocando-o com os pés, mas temia que ele desaparecesse no fundo movediço do mar. Soltei a rede e afundei para apanhar a coisa. Quando retornei à tona, na minha mão estava uma aliança. Não comentei com ninguém. Guardei-a no bolso do calção. E continuei agarrado no arrastão de praia.
No lado interno, um nome gravado. Embora soubesse o nome do dono da jóia, investiguei entre os pescadores se algum deles havia perdido uma aliança. Ninguém. Nenhum conhecido. Então, resolvi mantê-la num barbante amarrado na corrente que eu trazia no pescoço.
Dias depois, num sábado à tarde, deu-me uma vontade irresistível de passear pelos lados da "Biquinha", na cidade vizinha de São Vicente. Montei na bicicleta e rumei célere para lá. Desejava sentar-me na praça, em silêncio, e meditar um pouco. Acomodei-me num banco protegido pela sombra de uma encantadora árvore. Dezenas de pombas procuravam gulodices pelo chão. Crianças passavam saboreando doces, sorvetes... Algodão doce (que saudade!)... Casais de namorados nas muretas, nos bancos, caminhando abraçados pela praça...
- Você vai me desculpar, mas eu não aceito o que você fez. – disse-lhe ela, aparentemente nervosa. Um casal sentara ao meu lado, naquele banco da praça.
- Mas meu amor, foi num momento de raiva. Eu não tinha a intenção...
- Tudo bem. Se você não vendeu a aliança, mostre-me ela. Se você realmente não tinha a intenção de me deixar, a aliança é a prova.
A história da aliança deixou-me curioso.
- Eu a perdi no mar, acredite. Não sei o que aconteceu... – justificava ele.
- Não acredito. Pra mim, você se desfez dela. E eu sei como você é por dinheiro.
- Como é seu nome? – perguntei-lhe de súbito.
- Carlos! – respondeu-me sem me olhar.
A aliança era dele, com certeza. Muita coincidência dois Carlos jogarem a aliança no mar. Disfarçadamente, arranquei-a do barbante e, num ato rápido, coloquei-a no bolso do casaco do Carlos. Ninguém viu. Nem ele, nem ela.
- Não quero saber. Quero ver a aliança e pronto! E agora!
- Tá no bolso do seu casaco, seu m... – disse-lhe eu, ao seu ouvido, dando-lhe um tapa no ombro. E procurei afastar-me. O Carlos, embaraçado, certamente confuso, olhava para mim enquanto tirava a aliança do bolso do casaco.
Já distante, pedalando minha bicicleta, com o alívio da boa ação praticada, olhei para trás e vi o tal casal num longo beijo de amor. De reconciliação. E, com certeza, entendi, mais uma vez, que Deus manteve-se anônimo naquele acaso de coincidências.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

É SÓ UMA IDEIA


Qual seriam os níveis de miséria no mundo, de pobreza total, se todo o Conhecimento humano fosse distribuído, por equidade, em toda a humanidade?
Tinha lá meus doze, treze anos.
Cursava o ginasial.
Não era, confesso, um aluno exemplar. Mas não decepcionava.
E tal condição era o bastante para minha saudosa mãe exagerar nos elogios ao seu único filho. Tanto assim que, num belo dia, recebemos a visita de uma de suas amigas. Mulher simples, pobre, que lutava para manter seu filho em escolas públicas.
- Dona Tita, vim aqui pedir um favor à senhora. Meu filho está para fazer os exames de admissão para o “Canadá” (uma escola estadual). Ele não está bem nos estudos... Será que seu filho não dava umas aulas de reforço pra ele?
Exames de admissão...
Não me deixaram saudades.
Para ingressar no primeiro ano do curso ginasial era obrigatório o exame de admissão. Uma espécie de vestibular, nas devidas proporções, com as mesmas complexidades, com as mesmas angústias e ansiedades. Um horror!
Eu já havia superado essa fase, mas o Elias não.
O filho daquela senhora.
Então, por interferência de minha mãe, iniciei minha carreira de professor. Duas vezes por semana, o menino Elias vinha à minha casa para aprender o que eu tinha de conhecimentos para ensinar.
Um pouco de português, outro tanto de aritmética... E assim, as tardes de terças e quintas enriqueciam meu modesto currículo de vida com a missão de servir.
Contudo, sem muitas emoções. Na verdade, eu fazia tudo aquilo para atender um pedido materno.
“Meu filho é um professor!” – dizia Dona Tita, com orgulho, a todos quantos passassem por ela.
Nesse passo, dois meses se foram no consumo de terças e quintas. Mas num desses acasos que Deus assina como anônimo, por compromisso inadiável (consulta médica), eu não poderia dar aula ao Elias na quinta. Então, na quarta, fui à sua casa para avisá-lo do impedimento.
- Olá, Robertinho! Quer falar com o Elias? Pode entrar, ele está na cozinha.
Lá estava o Elias, sentado à cabeceira da mesa da cozinha, com livro e o caderno que usava em minhas aulas à sua frente.
E ao redor da mesa, mais cinco meninos, também com seus cadernos. E aí eu compreendi o verdadeiro sentido da solidariedade, da fraternidade.
O que o Elias aprendia comigo nas terças, ele ensinava aos amigos nas quartas. E repetia a ação nas sextas.
Longos cinco meses de trabalho, meu e do Elias. Mas, afinal, nossa luta recuperou esperanças, arrematou certezas, sacrificou dúvidas. E o Colégio “Canadá” matriculou o Elias na primeira série do ginásio e os cinco meninos ex-estudantes de mesa de cozinha.
Essa experiência alterou profundamente meus conceitos sobre a vida.
Percebi, tão cedo graças a Deus, a importância do servir.
A necessidade de auxiliarmos outras pessoas a serem felizes. De compreender que a nossa felicidade está intimamente ligada à felicidade das pessoas que nos cercam. Não há como crescermos sozinhos. A nossa evolução é parte da evolução infinita. Cada um de nós compõe o universo dos seres, não só humanos, que vivem em busca da harmonia, da paz, da felicidade. Somos uma sociedade etérea, comunidades heterogêneas, que, infelizmente, ainda se agridem em nome de equilíbrios sistêmicos, em nome de doutrinas tão diversas quanto a própria natureza das idéias.
Então, como buscar a harmonia que resulte na paz e, assim, produza a felicidade em cada um de nós? Evidentemente, não há fórmula mágica. Mas podemos buscar magia nas fórmulas disponíveis. Os instrumentos somos nós mesmos. E os meios estão nas experiências de vida que todos nós, sem distinções, adquirimos a cada dia. Reservar somente para si os conhecimentos que a vida oferece é egoísmo inadmissível. É deixar o túmulo digerir todo alimento acondicionado por uma existência na nossa mente, transformando-o, mais tarde, em adubo do nada, excremento da mesquinhez.
Sou e sempre serei da filosofia do ensinar a ensinar. Da troca de experiências. Da distribuição do Conhecimento, principalmente àqueles que não possuem recursos financeiros para adquiri-lo. Que Deus me dê sopas para alimentar os famintos, mas também me dê didática para supri-los do saber. Haverá o dia em que, nivelados pelo Conhecimento, as comunidades não serão tão heterogêneas, a harmonia será conseqüência da solidariedade e a tão sonhada Paz estará em nosso meio como passageira eterna no veículo-tempo que nos transporta do nascimento à morte. Todos terão as mesmas oportunidades. E a fraternidade será consagrada pelo verdadeiro amor ao semelhante.
Que tal sentarmos à cabeceira da mesa de nossa cozinha e prepararmos meninos e meninas para os ´exames de admissão´, impostos pela vida, que possibilitam a matrícula de cada um na escola da felicidade? Seríamos, então, os embriões da Grande Célula da fraternidade.
É só uma idéia...

Roberto Villani

terça-feira, 30 de junho de 2009

MEU DIA MAIS BONITO DO ANO


No domingo, dia 21, completaria setenta anos de idade. Sete décadas, contagem mágica, cabalística. Necessária alguma comemoração especial. Ter a minha volta a família, filhos, genros, netos... Até a nora que está a caminho. Entretanto, para satisfazer tal desejo, seria preciso reunirmo-nos em Santos, na casa da filha que por lá ficou quando vim para o interior. Então, convocação geral. Sairíamos na quinta à noite; combinado. Arrumamos as malas, acomodando-as nos porta-malas dos nossos carros. E dividimos as pessoas em dois veículos, quem ia neste, quem ia naquele. A ansiedade era tanta que quase esqueci de abastecer meu carro.
Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz.
Aproveitando minha presença em Santos na sexta-feira, marquei encontros importantes para mim e para o meu trabalho. Acordei relativamente cedo. Banhei-me, tomei café e saí curtindo ruas da cidade onde nasci. Santos está muito linda. Dirigia devagar, observando jardins, edifícios, pessoas... O mar... Sensação gostosa inundava meu íntimo. Orgulho travesso revia um moleque jogando bola naquelas areias. Saudade marota arrancou lágrimas de meus olhos atentos a tudo.
Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz.
Problemas para estacionar. Eu estava a caminho do Hospital São Lucas. Não, caro leitor, querida leitora, eu não estava com problemas de saúde. Dirigia-me àquele local para encontrar um velho amigo, funcionário de lá. O José Roberto, ou melhor, o Zé. Não nos víamos há muito tempo. Mas consegui uma vaga para deixar o meu carro. E fui obrigado a andar duas quadras. Eu sei que caminhar é preciso, que faz bem, mas...
Confesso que me emocionei ao entrar no Hospital São Lucas. Durante dez anos trabalhei ali na implantação e manutenção de sistemas de informática. Eu e o Zé Roberto. Comecei desenvolvendo programas num Applle, na linguagem chamada Turbo Basic, hoje objetos de museu. Com a compra de equipamentos mais sofisticados, criamos sistemas em Data Flex, linguagem avançada naquela época. Década de 80. Hoje, numa reverência do meu amigo Zé Roberto, sou considerado o pai da informática no Hospital São Lucas de Santos. Gostoso, não? Posso garantir que a conversa foi longe. Relembranças do passado. Das pessoas que conhecemos e que já se foram. E daquelas que, graças a Deus, ainda pertencem ao nosso presente. Deixei o São Lucas certo de ter alimentado um pouco mais a minha alegria.
Após o almoço, pus-me novamente nas ruas de Santos. Meu objetivo então era rever o meu grande amigo Carlos Pinto, Secretário da Cultura de Santos e presidente do ICACESP - . Amizade antiga, que nasceu na década de setenta, mais precisamente em 1971, quando organizei o primeiro festival de teatro infantil. O Carlos era presidente da Federação Santista de Teatro Amador e tornou-se parceiro na realização do evento, auxiliando-me naquela empreitada. O Carlos é um experto em administração pública, principalmente na área da cultura. Homem público de importância política invejável. Ser seu amigo é privilégio especial.
Nosso encontro mostrou-me uma panorâmica da cultura de um modo geral. Falei-lhe da cultura em Descalvado, das dificuldades, dos projetos, do intenso trabalho apesar das ausências... Visitei o Teatro Municipal; o Carlos está cuidando de restauros e de reformas naquele local que eu guardo com carinho no âmago das minhas saudades. Testemunha presente nas lides de meus trabalhos teatrais. Enfim, entre o primeiro e o segundo cafezinho, estreitamos acordos e eu garanti minha inscrição no ICACESP.
Deixei o gabinete do Carlos Pinto profundamente regozijado. Com a certeza de seu apoio no que me for preciso e com ingressos para assistirmos a Marisa Orth no dia seguinte, à noite, no lindíssimo Teatro Coliseu. Maravilhoso. Fomos, família de treze pessoas, e espalhamo-nos nas frisas, tribuna e camarote. E encantamo-nos. Marisa Orth, quem não a viu cantando num palco, esbanjando talento de artista completa, não imagina a beleza de sua figura e a força de sua voz. Pudesse eu trazê-la a Descalvado... Quem sabe, não é?
Como não poderia deixar de ser, o domingo nasceu belíssimo. O sol, logo pela manhã, abraçou-me por inteiro. Calor de aniversário. E acompanhou-nos pelo dia todo. Passeios pelo Gonzaga, pela Ponta da Praia... Pela Biquinha, em São Vicente... Ao entardecer, com certeza cansado pelas caminhadas ao longo do dia, o sol deixou-se levar para o oeste, abrindo espaço para a enluarada noite, repleta de estrelas, oferecer-me o beijo azul de parabéns.
Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz.
Por fim, em cima do bolo de frutas da Viena, duas imponentes velas revelavam minha nova idade. Setenta. Agradeci a Deus e ao Mestre Jesus o privilégio de apagar aquelas velas junto com toda a minha família linda. Ao meu lado, como há quase meio século, Rosária, minha eterna companheira. Meus filhos Rosane, Rosângela e Roberto. Meus genros Luiz Borim e Luiz Calado. Meus netos Luiz Roberto, Andrey, Andressa e Allan. Minha futura nora Fernanda e a Marilia, namorada do Andrey. Comi o doce daqueles momentos, bebi o néctar da felicidade, sorvi a alegria de estar vivo diante dos meus entes queridos. E a noite passou em paz. Desfez-se no calendário o meu dia mais bonito do ano.
Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz.
Roberto Villani
ps do editor:
Meu caro, penso eu que faltou arrumar um tempinho, para ir ate a Rio de janeiro 134, visitar o Carlos Alberto, mas.... Não se pode querer tudo, num dia só, ne?
hehehehhh

segunda-feira, 15 de junho de 2009

LER É CRESCER !

Beni esforçava-se para perder o medo de falar. E alguma mudança já ocorria no comportamento dele. Tanto assim que não foi difícil para Dida, sua fiel amiga e possibilidade de namoro, convencê-lo a assistir a uma palestra no anfiteatro do colégio. Eu fora convidado pela direção da escola para falar sobre livros e leitura. Uma iniciativa louvável para incentivar os alunos ao hábito de ler.
Beni e Dida acomodaram-se na última fileira, por escolha dele. Não queria ser muito notado entre seus colegas de escola. Como o auditório estava lotado, não lhe seria difícil passar despercebido.
- Alguém pode me responder quantos analfabetos existem no Brasil? – eu iniciava a palestra. – Como a quantidade ainda é muito grande, milhares de pessoas carecem do mínimo de Conhecimento. Por essa razão, única e indiscutível, o fracasso é o companheiro permanente na vida dessa gente. Ler é acrescentar bagagens culturais. É saber mais. Lendo, cada um de vocês aumenta o vocabulário, desenvolve a análise das argumentações, ou seja, elabora automaticamente pontos de vista e idéias.
- Ele é bom, não acha? – Dida provocava o Beni.
- Parece que é... – Beni, finalmente, emitiu um parecer, ato raro para ele, para júbilo da Dida. Eu continuava:
- Todo aquele que pretende falar bem, criar com correção seus argumentos para expô-los a outras pessoas, deve ler muito. É regra fundamental da comunicação. Quem se dedica metodicamente à leitura dificilmente escreverá ou falará de forma errada. Na leitura, assimilamos as maneiras corretas do uso das palavras, da composição das frases, enfim, de todos os quesitos necessários à boa comunicação. Mas uma coisa é importante: selecionem cuidadosamente o que vão ler. Existem muitas porcarias em forma de livros, que não acrescentarão nada ao conhecimento. Pelo contrário, poderão destruir o que vocês já tenham construído.
- Eu não gosto de ler. – sussurrou Beni a Dida. – O que posso fazer?
- Pergunte a ele. Levante a mão e pergunte. – disse-lhe ela.
Inútil proposta. Ela sabia que Beni ainda não estava preparado para expor-se em público. E resolveu substituí-lo na questão:
- Professor, eu não gosto de ler. O que posso fazer para mudar?
- Para quem não praticou a leitura desde pequeno, o desafio não é fácil. Mas também não é impossível. Você precisa adquirir o hábito. Ter vontade, entendeu? Ter consciência de que você só obterá sucesso na vida se buscar o Conhecimento através da leitura. Mas não se disponha, inicialmente, à leitura de grandes best-sellers, porque são famosos e porque todo mundo lê. Comece com livros de poesia, de crônicas, de contos... Parábolas... Muitos destes também são best-sellers, ótimos para conquistar nossas atenções iniciais, pois se constituem de estórias curtas e com muito conteúdo. Coisas assim, plenas de ensinamentos. Poesias, crônicas, contos e parábolas são ricos em exemplos verdadeiros da vida. E à medida que você desenvolve o gosto pelas letras, seu apetite literário vai exigindo leituras mais complexas. É só começar. Experimente. Tenho absoluta certeza de que você jamais se arrependerá de ter-me feito essa pergunta.
Ao finalizar, depois de uma hora de explanações, conclui:
- Lembrem-se sempre: ler é crescer!
Beni e Dida deixaram a escola felizes. Gostaram da palestra. Ouviram coisas esclarecedoras e importantes. Compreenderam que a leitura é a base de todo o Conhecimento. É a via preferencial do sucesso. E, a caminho de suas casas, passaram por uma livraria. Cada um comprou um livro. Beni escolheu Ecos da Alma, da poeta Fátima Irene Pinto. Dida optou por Levando a Vida Leve, de Laura Medioli. Carregaram-nos como algo precioso junto ao peito.
À porta da casa da Dida, entreolharam-se, sorriram e...
- Comprei este livro pra você, Beni. Com todo o meu carinho. – Dida estendeu as mãos dando o livro para o Beni.
O Beni, sem conseguir falar, deu o livro que comprara para Dida. E uma lágrima teimosa riscou de emoção seu rosto enrubescido. Dida estava feliz. O Beni dera o primeiro passo em busca da felicidade. E, quem sabe, do seu amor.
Beni foi direto ao seu quarto. Sentou-se na beirada da cama, pensativo. Desembrulhou o pacote do livro, com muito cuidado, sem pressa. Passeou pelas páginas impressas, sem ler. Buscando contato com aquele livro, senti-lo nas mãos. Algo valioso, só seu. Talvez estivesse ali, no livro, a chave das grades que prendiam seu projeto de ser feliz...
- Eu vou conseguir! – falou para si mesmo. Depois, deixou-se tombar sobre a cama. Paz sem cerimônia invadiu seu íntimo. E adormeceu tranqüilo, abraçado ao livro.

Roberto villani