GESTOS PERIGOSOS

sexta-feira, 27 de março de 2009

GOOOOL!!! DE CHUTEIRA?????


Charles Miller trouxe a primeira bola de futebol para o Brasil, em 1894. Nem imaginava o que a gorduchinha, como diria Osmar Santos, promoveria entre os brasileiros. Fascínio, posso dizer. Algo indescritível, até alucinante, ora místico, ora vulgar. Deus e o diabo nas sendas dos certames. Guerra e paz. Amor e ódio. Todos os sentimentos opostos, extremos, declarados em punhos fechados esmurrando o espaço. Em bocas abertas de dor e alegria. O despertar dos magos. O elixir dos reis. Máquina de fazer milionários e miseráveis. Êxtase dos deuses míticos. Tudo e nada. Vitória e derrota. Gargalhadas e prantos intermináveis. Infarto! Futebol!
Sempre que entramos no clima de final de algum campeonato lembro de histórias interessantes. Fatos que marcaram minha vida de futebolista, nos priscos tempos da minha juventude. Eu tinha um vizinho apaixonado por futebol. Santista roxo. Conversávamos muito sobre pelejas diversas. Discutíamos muito quando o assunto girava por comparações entre o Alvinegro da Vila Belmiro e o Palmeiras. Mas estávamos sempre de acordo nas demais questões do popular esporte.
João Forganes, o meu vizinho, já tinha dois filhos. Evidente que era mais velho. Eu, adolescente, procurava extrair dele ensinamentos sobre a vida. Como um irmão mais velho. Por isso, não me incomodava quando, a cada gol do Santos, ele colocava o rádio sobre o muro divisório e aumentava exageradamente o volume. Eu sempre lhe dava o troco. Nos gols do Palmeiras, eu saltava o mesmo muro e, invadindo a varanda da sua casa, cantava em alto e bom tom o hino palmeirense. Jogo findo, reuníamos na rua, em frente às nossas casas, e ríamos muito, gostosas gargalhadas de amigos sobre todas as coisas.
- Vamos fundar um time? – perguntou-me o João, pegando-me de surpresa.
- Para quê? – pergunta idiota.
- Para que queremos fundar um time? Para jogarmos futebol, ora!
Goiás Futebol Clube, nome dado em razão dos vários jogadores residentes na Rua Goiás. Camisa verde. Calções e meias brancos. Presidente, vice, secretário, tesoureiro, conselho... Livro de atas. Coisa organizada. Treinávamos num campo da Ponta da Praia. Jogávamos, a princípio, para testar nossas equipes. Primeiro e segundo times. Amistosos sem compromissos. Assim, aos sábados ou domingos, visitávamos bairros e cidades da região, enfrentando adversários buscando os mesmos fins.
De repente, estávamos no meio de um campeonato varzeano. Times de Santos, Guarujá e São Vicente. Nossa valorosa equipe mostrava competência e avançava na tabela. Modéstia à parte, tínhamos um bom grupo. A empolgação de nossos companheiros jogadores animava nossa torcida a nos acompanhar em cada partida. Já se via nas arquibancadas camisas verdes enfocando nosso querido Goiás. Havia sempre, num canto qualquer, alguns batuqueiros fazendo barulho. Cada jogo, uma festa inesquecível.
Alcançamos, finalmente, a final. Jogaríamos no campo do adversário, o Juventus. Cidade de São Vicente. 1956, o ano. Nossa turma sabia que a disputa seria muito difícil, principalmente porque teríamos que vencer. Ao Juventus bastava o empate, pois o saldo de gols dava-lhe essa vantagem. E fomos ao campo com a certeza da vitória.
O jogo mostrava-se emocionante. Oportunidades dos dois lados. Os gols não aconteciam, mas as torcidas agitavam-se animadíssimas. Minutos finais, dois ou três. Tudo indicava que o Juventus levaria a taça. De repente, nosso lateral direito avançou pela ponta, velocidade não acompanhada pelo seu marcador. Quase na linha de fundo, cruzou em direção à pequena área. O goleiro do Juventus, na ânsia de agarrar a bola, saltou, conseguiu mal-e-mal dar um tapa na gorduchinha e trombou violentamente no meu marcador. A bola subiu e, para meu gáudio, sozinho diante do gol totalmente aberto, caia em minha direção. Bastava tocá-la, ela entraria. Uma barrigada seria o suficiente. Com o joelho... “Sopra!”, alguém na torcida gritou. Aquela seria minha grande chance de estufar a rede. A consagração. Meu Goiás seria campeão com um gol meu. E a ação concretizou-se. Da forma que ela, a bola, desceu, subiu a pino, como foguete rumo ao espaço sideral. Meu chute foi tão violento que minha chuteira escapou do meu pé e entrou na forquilha esquerda do gol adversário. “Gooool!”, gritaram todas as torcidas do mundo. E sob estrondosa gargalhada de todos que ali estavam, deixei o gramado para nunca mais esquecer o ridículo.

quinta-feira, 19 de março de 2009

LENDA DA MULHER DOS SEIOS RUBROS


Com meus treze anos, não me era difícil aventurar-me pela região onde eu morava. Tarefas diárias cumpridas, pegava minha bicicleta e, muitas vezes, sem rumo, viajava pelos segredos da juventude, buscando liberdade. Visitava ruas e ruelas. Conhecia o desconhecido. Desvendava mistérios. Coisas de menino curioso, desbravador de sonhos. O vento acariciava meu rosto enquanto eu pedalava tentando encontrar o horizonte. Quem sabe alcançar o outro lado do arco-íris e achar o tal tesouro dos contos de fada. Olhares panorâmicos me forneciam detalhes de janelas e sacadas, de flores e pássaros, de pessoas das mais diferentes aparências... Um cão acolá urinava na sacola da senhora distraída. Meninos, como eu, encenavam um jogo de futebol. Meninas, acomodadas na calçada, amamentavam bonecas com mamadeiras improvisadas. Minhas sensações davam-me a entender que eu descobria o mundo no pequeno espaço coberto pelas rodas da minha bicicleta.
Numa noite, reunido aos colegas de rua na calçada da Mercearia Brazão, falávamos de assuntos próprios das nossas idades. Tirávamos dúvidas, revelávamos conhecimentos, discutíamos com tal empenho que parecíamos membros de organização governamental. Fazíamos nossas leis como legisladores de nossas relações. Isto pode, aquilo não! A proposta constituía-se em proteção, nossa proteção, em razão de perigos irrelevantes, mas que, naquele pedaço de vida de cada um, tomavam proporções alarmantes.
- Nenhum de nós deve provocar o Tico Doido. Ele não é bom da cabeça e pode agredir qualquer um de nós sem mais nem menos. – disse o Godofredo.
- Nem passarmos pela Ilha Maldita no dia 30 de agosto, à meia-noite. A mulher dos seios rubros aparece e pode jogar maldição na gente. Foi minha mãe quem falou. – avisou o Júnior Italiano.
Coisas do encanto. Lendas que envolvem nossa existência como fatos mágicos que, de certa forma, enriquecem nossos arquivos fantásticos. Próximo de nossas casas havia um lugar chamado Ilha Maldita. Uma rua sem saída, um beco estranho, envolvido em mistérios. Alguns barracos espetados em chão de terra batida abrigavam famílias bem pobres. Por ali, não passavam carros, nem carroças, nem pessoas, a não ser residentes. Muitas estórias pululavam pelo cenário daquele lugar. Coisas de mistérios, de segredos, incompreensíveis, quiçá inacreditáveis... No fundo do beco, exatamente onde era interrompida o que seria a continuação da rua, intransponível bambuzal. Contava-se que ali, atrás de tantos bambus, uma casa de madeira, abandonada, guardava estória dramática. Lá viveu um casal. Ele, Jorge, bem mais velho que ela, a Miriam. Jovem, corpo bem definido, ela acabou por seduzir um rapaz das redondezas. Encontravam-se na casa dela, sempre que o marido, viajante, deixava a cidade. Certa noite, 30 de agosto, Jorge, por motivos desconhecidos, voltou antes do esperado. E no instante que se aproximava de sua casa, pode ver Miriam abrir a janela do seu quarto. Estava nua e mostrava os fartos seios à luz do luar. Atrás de Miriam estava o amante. Jorge, sem perda de tempo, sacou do revolver e atirou. Uma só bala atravessou o peito de Miriam e alojou-se no coração do amante. Os fartos seios de Miriam cobriram-se de sangue. E a tragédia perpetuou-se como lenda. Todo dia 30 de agosto Miriam aparecia na janela da casa abandonada.
No dia fatídico de aniversário da tragédia, não perdi tempo. Não temi a falada maldição. Inventei alguma coisa aos meus pais para justificar o tardar no retorno para casa e rumei para a Ilha Maldita. Queria ver de perto o que o povo descrevia. No local, afastei alguns bambus e, com dificuldade, pude ver a tal janela. Lá pelas tantas, uma formosa jovem apareceu. Tinha os lindos seios à mostra e um vulto de homem atrás do seu corpo nu. Eu estava extasiado com o que via. De repente, um estampido. Os seios de Miriam tornaram-se vermelhos, cor de sangue. Aos poucos, a imagem naquela janela desvaneceu-se, sumiu. Arrepiado, fugi daquele lugar. O horror tomara conta de meu ser. Conferi a veracidade da lenda? Ou não? Se foi coisa da minha imaginação, não sei. Prevenido, nunca mais me aproximei do sinistro bambuzal.
Roberto Villani

sexta-feira, 13 de março de 2009

BOI DE BOCA LARGA


Rômulo nasceu pobre. Mas aos 14, 15 anos, Rômulo viu seu pai entrar no comércio dos touros, bois e vacas. Criador, digamos assim. Comprava, procriava e vendia. Entre um negócio e outro, o pai do Rômulo conseguia juntar alguns trocados para o futuro. Coisa pouca, mas alguma coisa. Assim, aos poucos, entre um bezerro e outro, o pai do Rômulo, de alguns bois fez boiada. Não numerosas rezes, mas já não decepcionava.
Lá pelas tantas, já no verdor de seus 30 anos, Rômulo viu seu pai partir para outros prados, talvez mais azuis do que verdes. Sobrou para Rômulo um pedaço de terra e um punhado de touros, de bois e de vacas. Coisa pouca, mas alguma coisa. Mais ou menos animado, Rômulo encaminhou sua vida ao comércio dos touros, bois e vacas. E já demonstrava orgulho de seu trabalho, admirando cada bezerro que nascia em sua terra, quando algo inusitado o decepcionou.
- De boca larga? – perguntavam espantados alguns.
- Sim, um bezerro de boca larga. – respondia, choroso, o pobre Rômulo. – E meu pai foi o culpado, pois me deixou machos de má qualidade.
Rômulo, depois de algum tempo, resolveu entrar no comércio de boi de corte. Queria diversificar. Comprar, procriar e vender já não era tão atrativo financeiramente. No comércio de boi de corte, poderia até exportar. Receber em dólar. Já imaginaram Rômulo contanto dólares? Valia a pena. E tentou daqui, tentou dali...
- De boca larga? – outros espantados perguntavam.
- Sim, um touro de boca larga. – respondia, choroso, o pobre Rômulo. – O sócio do meu pai foi o culpado, pois só trazia machos de má qualidade para nossa terra e meu pai os aceitava.
Mas o negócio de boi de corte não deu certo. Faltava-lhe volume de carnes para negociar bem. Os pedidos suplantavam o estoque. E Rômulo perdia contratos, perdia dinheiro. Com a oferta menor, as propostas diminuíam, a concorrência vencia, o Rômulo perdia.
- De boca larga? – perguntavam espantados tantos outros.
- Sim, um boi de boca larga. – respondia, choroso, o pobre Rômulo. – A vaca que o pariu foi a culpada, trazida pelo sócio do meu pai e meu pai a aceitou.
Sem pensar muito, virou seu comércio para a produção de leite. Separou as vacas mais tetudas, pois achava que pelo tamanho dos peitos a quantidade diária de leite seria maior. Juntou banquinho, balde, luvas... Rômulo especializou-se em ordenhar vacas, as poucas vacas para pouco leite. Coisa pouca, mas alguma coisa.
Rômulo não viu o bezerro de boca larga crescer alimentado pelo leite da vaca que o gerou. Rômulo não viu o touro de boca larga ser castrado não sei por quê. Rômulo não viu o boi de boca larga ser abandonado no pasto como algo sem serventia, inútil. Para que serve um boi de boca larga? Como reprodutor, uma blasfêmia contra a Natureza. Para corte, uma temeridade para a saúde pública. Para produzir leite... Já não era macho, mas também não era fêmea. Aquele bicho de boca larga não servia mesmo pra nada. Não era nada! Rômulo pensava assim e por isso não o via.
Um dia, não muito aquém do começo de tudo, Rômulo viu o seu comércio falir. O seu mundo ruir. E sua vida ir parar no meio do pasto. Ao lado de um boi de boca larga.
- Você precisa reconhecer as leis que estão regendo a sua vida e ter coragem para mudá-las. - disse-lhe o boi de boca larga.
- Você fala? – perguntou Rômulo, completamente confuso e amedrontado.
- Para isso tenho a boca larga. O que para você é um terrível defeito, para mim é benção divina.
- Mas por que não descobri isso antes, meu Deus?
- Porque você sempre fez as mesmas coisas. Sempre viu as mesmas coisas. Em conseqüência, sempre recebeu as mesmas coisas. Além disso, sempre colocou sobre os outros a culpa de seus inúmeros erros. Eu fui uma idéia nova. Fui uma esperança. Fui a possibilidade de mudar o seu caminho antes da sua derrocada. Mas você não me viu. Não me entendeu.
- Foi o destino, boi da boca larga.
- O destino destina e nós fazemos o resto. Não há caminhos feitos. Nós os fazemos à medida que caminhamos. Por falar nisso, vem comigo?
- Para onde você vai?
- Para algum lugar que me dê satisfação. Se você agora me vê como uma boa idéia, siga-me. Lembre-se de que somente um boi de boca larga restou para você.
Há quem diga que um homem muito velho e um boi de boca larga atravessam caminhos pelo mundo todo. O boi fala e o homem escuta. E aqueles que entenderem a fala do boi e o silêncio do homem serão os senhores absolutos de seus próprios caminhos. Pode até ser coisa pouca, mas alguma coisa, com certeza.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A SEDUÇÃO DA CUECA AZUL


O que sabemos é que ele nasceu em Mitu, Colômbia. Como chegou à cidade de Tefé, no Brasil, ninguém sabe. Ele nunca falou sobre esse assunto. Deixava todos na dúvida entre fuga ou aventura. Veio para nossa terra já moço, com certo grau de estudos, o que não lhe dava à classe dos matutos. Trouxe poucas roupas numa mala surrada e coberta de barro, o que indicava caminhas a pé pela mata amazônica antes de desembarcar em Tefé.
- Como é seu nome? – perguntou-lhe um posseiro que tinha uns servicinhos pro moço.
- Antonio. – respondeu-lhe de forma lacônica.
- Pois já vou dizendo pra você que não fui com a sua cara. Você tem cara de índio e eu não gosto dessa raça. Mas o serviço é seu.
Antonio, o colombiano, ficou em Tefé por três anos. Depois, pegando caronas, partiu para Porto Velho, em Rondônia. Já se sentia à vontade entre nossos patrícios. Conseguiu emprego numa empresa de transporte como ajudante de motorista. Trabalhava o dia todo e à noite passeava pelas ruas em busca de diversões. Algum tipo de jogo, caminhadas, danceterias, mulheres... E nesse particular, mulheres, Antonio não tinha muita sorte. Parecia não agradar ninguém, nem as raparigas de vida fácil.
- Estou na precisão. A moça está disponível? – argumentava Antonio. E na afirmativa da mulher, levava-a para algum hotel barato.
- Cueca vermelha? Que luxo! – ironizava a prostituta, o que na desmoralização apagava todo o ânimo do pobre Antonio.
Mais três anos fora da cidade natal e Antonio desceu pelo mapa do Brasil. Passou por Cuiabá – Mato Grosso, depois Campo Grande no Mato Grosso do Sul e finalmente desembarcou em Cubatão, no Estado de São Paulo. Alguém havia lhe dito que essa cidade estava prosperando industrialmente e que lá emprego seria fácil. Não foi bem assim. Suportou três meses de intensas procuras sem êxito. Sua sorte é que encontrou um colombiano que lhe ofereceu ajuda.
- Você mora comigo até arrumar trabalho. Não precisa pagar nada. Depois a gente se entende. – disse Héctor ao já amigo Antonio.
Antonio visitou a Refinaria Presidente Bernardes, a Cosipa, a Rhodia, Brasileira de Estireno... Enfim, andou pelas salas de entrevista das grandes indústrias da cidade. Nada! Desanimava quando, numa tarde cinzenta, Héctor anunciou com largo sorriso colombiano:
- Estás empregado, amigo!
Antônio não dormiu naquela noite. Ansiedade e nervosismo alimentaram a insônia. Às cinco da manhã, levantou-se e tomou demorado banho. Vestiu-se com a melhor roupa e empapou-se com o perfume do amigo Héctor. Às sete horas em ponto estava no hall de entrada da empresa Passo Largo de Transportes.
- Bom dia. Antonio o seu nome, não? Sou a proprietária desta companhia e já vou adiantando: não gosto de intimidades, não fui com a sua cara de índio, mas o trabalho é seu.
Essas palavras Antônio já tinha ouvido há alguns anos. Não lhe incomodavam. O problema maior era a proprietária Marisa. Mulher maravilhosa. Corpo escultural. Ruiva natural. Pobre Antonio, há longo tempo sem tocar num corpo feminino...
Passados alguns meses, a proprietária Marisa deu a Antonio uma camiseta de presente. No aniversário dele.
- Quero que experimente a camiseta ainda hoje, seu Antonio. Se não servir, eu troco.
Assim que Marisa saiu da sala, Antonio fechou a porta e rapidamente pôs-se a vestir a camiseta. Para ajeitá-la melhor no corpo, arriou as calças e...
- Caso o senhor... – Marisa abriu a porta surpreendendo o Antonio com as calças abaixadas. E prosseguiu: - Caso o senhor não goste da estampa, me avise. E fechou a porta com rispidez. Uma semana passou sem que Marisa tocasse no assunto. Nem Antonio. Temia perder o emprego. Até que...
- Bonita aquela sua cueca azul, seu Antonio. – disse-lhe ela com sensualismo.
- Gostou? Comprei meia dúzia delas. Hoje, por exemplo, estou vestindo uma... Quer ver? – arriscou o Antonio. Ou tudo ou nada.
- O senhor me mostra, seu Antonio? – Marisa derrubava todas as suas guardas.
- É pra já, dona Marisa!
Dizem que a Marisa não suportou ver Antonio com as calças arriadas mostrando a tal cueca azul. E que se atirou sobre ele sufocando-o com um beijo luxuriante e demorado. E que a partir desse momento tudo mudou na vida do colombiano. Ficou bem de vida como sócio na empresa Passo Largo. É considerado, até hoje, como o maior colecionador de cuecas azuis do planeta. Acho que até está no Guinness. Seria o caso de se conferir.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

VENTIS LOQUERIS

“Falas aos ventos” é o título desta crônica. Em latim. Confesso que descobri essa frase em algum lugar da Internet. A princípio, não lhe dei a devida importância. Depois, considerando melhor, resolvi colocar meus pensamentos a serviço de reflexões a respeito. Conheci pessoas que se arrepiavam ao ouvir alguma coisa pronunciada em latim. Diziam que o latim era o idioma das bruxas, dos bruxos. Dizem que São Cipriano, nas suas receitas de magia, orava em latim. Mas esse idioma também serviu e serve aos clérigos, aos místicos, aos eruditos. Na verdade, latim é língua de mistérios, de mundos mágicos. E não serei eu quem vai dizer o contrário. Cruz credo! Mas não vem ao caso, neste momento. O que me importa é contar minha história desta semana.
Carlo, como conheciam o italiano solitário. Atarracado, nariz adunco, voz cavernosa, soturno, distribuía olhares misteriosos à sua volta. As crianças, a maioria delas, assustavam-se ao vê-lo por perto. Algumas mulheres diziam-no parceiro do diabo, mais uma vez cruz credo! Não tinha amigos. Nem esposa nem familiares. Vivia sozinho mesmo. Ermitão, quase. De casa para o trabalho e vice-versa. Tomava café numa, digamos, padaria perto da sua casa. Almoçava no serviço. E jantava... Por mais que os curiosos investigassem, não havia viva alma que soubesse falar algo dele. Carlo, sim, era uma imensa incógnita.
O que mais aguçava a curiosidade do povo do lugarejo, uma vila de origem inglesa colocada no alto da serra pelas mãos do Senhor (conforme afirmavam seus habitantes), era a rotina noturna do Carlo. Ao anoitecer, ele se encaminhava lentamente em direção ao topo da montanha e lá se deixava ficar em meditação, às vezes por horas. Com chuva ou com luz de lua. Sentado à imagem ioga. Olhos fechados, silêncio absoluto quebrado pelos pequenos ruídos comuns aos lugares ermos. Mais tarde, erguia-se e falava coisas obscuras (para nós) aos ouvidos distantes. Com tapas nas calças, limpava a poeira e retornava à sua casa, com passos lentos.
Com as freqüentes conversas maldosas sobre o Carlo, cresciam os créditos sobre suas ligações com o demônio. Naquele lugar não havia lugar para pessoas assim, comprometidas com o mal. Reuniram-se alguns homens e combinaram. Ficariam à espreita, no alto da montanha, para ouvirem, bem de perto, cada palavra pronunciada pelo Carlo. Assim, saberiam que tipo de compromisso satânico Carlo cumpria.
Anoitecia e o italiano Carlo iniciava sua áspera caminhada. Gastava hora inteira para ir, um pouco menos para o retorno. Acredito que cansava, mas ele enfrentava o sacrifício com galhardia, com coragem. Aproximava-se do topo desconhecendo que seguiam seus passos, sorrateiros invasores de sua privacidade. Carlo meditou, falou, limpou o pó de suas calças e pôs-se de volta.
A noite foi longa para os investigadores. Discutiram, criaram propostas, sugeriram, negaram, idéias confusas, decisões atabalhoadas...
- Que droga de idioma fala o homem?
- Latim! Eu não entendi nada, mas sei que é latim por que eu estudei um pouco...
Na realidade, ninguém sabia o que Carlo falava todas as noites no topo da montanha. E se era latim o idioma da conversa, o Carlo falava com Deus ou com o Diabo. E aquela turba resolveu arrancar a verdade à força, via seqüestro do pobre italiano.
- Eu não quero nada com o diabo, acreditem. E também não falo com Deus. Não posso. – afirmava o italiano, amarrado a uma cadeira e rodeado de inquisidores.
- Podemos saber com quem você fala? Em latim?
- Com o vento. Ele carrega minhas palavras para a Itália, aos ouvidos da mulher que eu amo. Por ela, abandonei minha missão religiosa. Deixei a batina. Fui até excomungado, proibido de falar com Deus. Infelizmente, não posso mais voltar à minha pátria...
- É difícil acreditarmos nessa conversa. Como seria possível o vento levar tuas palavras tão longe?
- E à pessoa certa?
- Por que em latim?
- É o idioma dos ventos. – respondeu Carlo.
- Como você sabe que o vento leva mesmo suas mensagens à sua amada? - Um bombardeio de perguntas.
Carlo pediu que apanhassem um envelope num de seus bolsos, o que foi prontamente atendido. Uma carta, lida por todos. Surpresa nos rostos antes circunspetos.
- Mas aqui ela responde mensagens de uma semana... São claras as coisas que ela diz... Palavras que o vento levou... Você tem poderes de bruxo? – todos surpresos e assustados.
- Se os tivesse, não estaria preso nesta cadeira. E nem aturando tantas agressões. Em minha casa, tenho outras cartas que confirmarão o que digo.
Carlo foi solto com muitos pedidos de desculpas. Ganhou alguns amigos, pelo menos aqueles que acreditaram na sua história. Eu soube, há alguns anos, que metade da vila economizou para ajudar Carlo. E conseguiram trazer-lhe a amada. Mas não de graça. Carlo assumiu o compromisso de mandar mensagens a amigos e parentes distantes do povo da vila. No alto da montanha. Através de falas ao vento. Em latim. Qual a mágica? Segredo que o italiano Carlo jamais revelou. E eu não estou interessado em desvendar o mistério, palavra. Cruz credo! Pela terceira vez.

Roberto Villani

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

EU AMO TU - uma crônica de Roberto Villani


Ele nasceu pela manhã e aí muita coisa aconteceu no céu. O Incomensurável Mestre, apressado, convocou o Conselho dos Anjos para uma reunião importante. Dispôs seus Conselheiros ao redor da Távola Celestial. E no mesmo tom que anunciou a criação das flores, das árvores, dos animais, das águas e das estrelas, falou com entusiasmo:
- Meus Conselheiros, ele nasceu há pouco. Já derramou suas primeiras lágrimas. O PAI ordenou: quero que ela seja concebida hoje, antes da meia-noite.
- Mestre, teremos pouco tempo para... – um dos Conselheiros tentava argumentar alguma dificuldade, mas foi interrompido pelo Incomensurável Mestre:
- Hoje é o dia 21 de junho. Tem que ser hoje! E não quero desculpas. O presente dele é a felicidade por toda a vida. E ela nascerá para ele no dia 21 de fevereiro.
O Conselho reuniu-se em harmonia. Decidiram atender prontamente o pedido do Mestre.
- Está certo, Mestre. Vamos resolver a questão imediatamente!
Um recém nascido na Terra sorriu pela primeira vez. E os Anjos começaram a escrever uma linda história de amor.
Os dois, ele e ela, nasceram de famílias pobres. Ele, menino, crescia livre na simplicidade daqueles que sonham com a alegria do sempre. Pertinho do mar. Ela, menina, buscava nos sonhos a alegria simples das bonecas de pano e da amarelinha no chão de terra. Bem próxima dos campos. Embora muito distantes um do outro, tinham na alma a ansiedade do encontro. Ainda não se conheciam, mas sentiam que alguma coisa eterna estava para acontecer num momento próximo. Com quinze anos, ela mudou-se para Santos. Deixou o Interior com os pais e irmãos.
O carnaval de 1957 estava para acontecer. Ele e seu amigo Naylor combinavam ir ao baile pré-carnavalesco do São Vicente Praia Clube. O amigo levaria a namorada Rody. Rody levaria sua prima, ela, para fazer companhia para ele. Estava tudo escrito no livro dos destinos. Dia 19 de janeiro, a lua encantava o céu de estrelas. O Incomensurável Mestre e os Conselheiros observavam tudo, lá de cima, atiçando os astros para que eles brilhassem mais que nas outras noites. Aquela tinha que ser especial. Enfim, ele e ela estariam unidos, almas compromissadas, definitivamente. E o primeiro beijo, naquela mesma noite, oculto, no retorno do clube, emocionou o Mestre. E os Anjos, com alegria, aplaudiram tanto que o Universo parou para sonhar com o amor. E os poetas cantaram canções românticas que só aqueles que amam podem entender.
De mãos dadas, caminhavam pela praia e confessavam seus sonhos, suas esperanças... Programavam os filhos, confabulavam segredos ao som do mar beijando a areia... No relacionamento entre ambos, trocaram seus nomes pela palavra BEM (um dos segredos da perfeita união, confessam).
E tiveram filhos, a primeira aos vinte anos. E a segunda aos vinte e dois. O terceiro seis anos depois... E criaram (e criam) cães, gatos, pássaros... E plantaram (e plantam) árvores, flores... E conquistaram (e conquistam) amigos inesquecíveis. No decorrer da história, cúmplices um do outro, venceram as dores, apagaram as mágoas, construíram vida própria dos romances eleitos. Ela, a grande companheira, inseparável, guardiã incansável da vida dele. A coluna-mestra de uma união que perdura cinqüenta e dois anos, desde aquele longínquo 1957. Quem é ela? Rosária, meu amor além da vida. Quem sou eu? Roberto, humilde coadjuvante nesta história escrita por ela, com certeza em parceria com o Incomensurável Mestre e com os Anjos da Távola Celestial.
- Bem, eu amo tu! Que Deus e Jesus acompanhem você sempre. Assim eu o farei muito além da nossa existência na Terra, pelo infinito, pela eternidade.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

MANDIOCA NOS CORNOS


Zulmira Reza Brava nasceu lá pelos cafundó do sertão nordestino. Na fronteira entre o Não sei Aonde e o Lugar Nenhum. Filha de Maria Muma e Silvério Pereira, negro azulado de olhos verdes, vindo moleque de Moçambique. Moravam numa casa de pau-a-pique, bem no centro de savana tórrida, alugada de um sujeito um pouco menos pobre que eles. Silvério cuidava da triste sobrevivência em lavoura de mandioca e cana de açúcar. Andava quilômetros a pé, na ida e na volta, todos os dias. Maria Muma tratava da casa e dos treze filhos que a vida, inconseqüente, lhe deu.
Zulmira era a mais velha da prole. Mal e mal aprendeu a ler numa escolinha de fazenda a quilômetros de sua casa. Menina-moça, revoltava-se com a miséria de todos os dias. Até que, de repente, juntou o pouco de roupas que tinha e pôs-se porta a fora. Disse à mãe que iria tentar a vida. Se tudo desse certo, voltaria para buscar a família. Andou pra lá, andou pra cá... Por fim de algumas léguas, Zulmira ajeitou-se no Bar das Frutinhas Frescas, nome que denunciava o comércio ilegal de meninas-moças. E ali descansou a pequena trouxa pendurada às costas. E ali fez seus primeiros tostões às custas dos prazeres que até então não conhecera.
Certa noite, apavorado, atônito, um caminhoneiro invadiu o Bar das Frutinhas Frescas com um homem nos braços. Muito ferido, desacordado, o tal sujeito foi posto de costas no chão, para alvoroço geral. Havia meninas que choravam copiosamente, outras corriam de um lado para outro. Houve até uma delas que desmaiou à frente do moribundo.
- Foi briga de faca. Coisa de morte, gente. – disse o caminhoneiro que trouxe o homem. – Aqui não tem ambulância nem policia por perto...
- Deixe que disso eu cuido. Sai todo mundo de perto! Só preciso de uma mandioca das gorda. – falou Zulmira espantando quem estava por lá.
Alguém rapidamente atendeu o pedido. Zulmira meteu as mãos por entre a saia e de lá retirou um canivete. E com ele cortou duas rodelas da mandioca, cada uma colocada sobre a testa do ferido. Pôs-se de pé e, com os braços em forma de cruz, rezou oração nunca ouvida, nunca falada. Coisa dela, particular.
- Deita o cabra na cama do quartinho dos fundo. Hoje, ninguém usa o locar. Tem muita moita lá pra trás. E pra quem quer saber, aprendi essas coisa com uma tia macumbeira.
Pois a coisa funcionou. No dia seguinte, o tal homem estava de pé, novo em folha. Só algumas cicatrizes marcavam os ferimentos. Era difícil acreditar que o benzimento da Zulmira fizera tão grande milagre.
Zulmira fez-se adolescente, adulta... Do Bar das Frutinhas Frescas transferiu-se para a Casa da Mãe Napolina, cafetina famosa do Rio de Janeiro. Lá, entre um trabalho e outro, Zulmira praticava seus benzimentos, sempre com grande sucesso. Havia quem a considerasse uma grande médium, no que ela retrucava.
- Sou isso não, patrão. Mas tem um caboclo que me acompanha aqui do lado. É ele que me dá força pras mandinga e rezas das brava.
Dizem que, certa noite, apareceu por lá um doutor muito necessitado. Vinha de Brasília sob indicação de um amigo, que lhe aconselhou Zulmira como a única salvação. Então, o tal doutor desvencilhou-se da vergonha e contou seu problema à benzedeira. Zulmira pensou, pensou... Olhou o homem de frente e...
- Pro seu causo, o remédio é mandioca nos cornos. Esse tratamento levanta defunto da sepurtura. O que tá pra baxo, fica pra cima. O froxo fica forte. O covarde vira valente. Quanto à sua mulhé, não prometo que ela vorta. O dotô não deu pra ela o que ela percisava. Quem não come bem em casa, procura comê de quarqué jeito na casa de arguém.
O doutor de Brasília ficou curado. Sua mulher, entretanto, não voltou para casa. Em compensação, ele ficou famoso por suas inúmeras conquistas. E de tão agradecido, quis levar Zulmira Reza Brava para a Capital. Não conseguiu.
- Muito obrigado, patrão. Mas perfiro ficar por aqui mermo. Meu negócio é botá mandioca nos cornos dos outro. Mas quando percisar, basta me procurar. Na casa de Mãe Napolina, mandioca é o que não farta!